Último Dia de Cativeiro

A vida não vinha-lhe sendo fácil havia um bom tempo. Depois que lhe capturaram para lhe tratar, você nunca mais soube o que era liberdade, não liberdade assim, de fato. Você estava sempre preso e vigiado. Por maior que fosse o espaço, era sempre um espaço limitado. E liberdade limitada não é liberdade, liberdade vigiada também não é. Liberdade que é liberdade tem que ser ampla o suficiente para se perder a definição, para parecer que nem é, para parecer que sempre foi assim.

Ilusões de mudança aconteceram e voltaram a acontecer, mas eram sempre apenas um novo cativeiro. Mudança mesmo só de endereço, de prisão, de quem lhe oprimia. A falta de liberdade e o cativo eram sempre os mesmos. Quando uma nova mudança chegava, você nem se iludia mais, sabia que seria excitação à toa, desperdício de energia, você faria papel de otário mais uma vez.

Mas o tal dia que nunca chegaria chegou e você nem percebeu. Ao contrário, pensou que, além de ser mais uma desilusão, dessa vez seria pior. Pois dessa vez não lhe disseram nada para lhe prepararem. Quando a mudança se aproximou, você só ouviu dos demais que essa seria a última. A escuridão e falta de visão à sua frente lhe fez entender o significado: não seria a última antes da liberdade, mas a última antes do fim.

Quando lhe abriram a porta, você hesitou por um instante. Pisou naquele terreno tão novo de tão esquecido e cambaleou por uns passos. O vento soprando contra suas asas e penas, quase lhe pareceu irreal. Suas asas se abriram quase por instinto, do qual você nem se lembrava mais, e você se desequilibrou novamente. Você olhou à sua volta, à sua frente, acima, e não pode achar limites. Suas asas insistiam em quererem ficar abertas, tanto quanto seus olhos quase cegos de tanta imensidão. Umas ajudavam os outros a verem, a sentirem o sem limite onde você finalmente estava, onde você já estivera, de onde você nunca deveria ter sido tirado.

Suas asas mal se acomodavam, mal se cabiam. Mais uma olhada ao redor, nenhum limite encontrado. Você solta seu instinto mais natural e, enquanto seu corpo se abaixa para pegar impulso com as pernas, suas asas se abrem, num movimento tão sincronizado que não poderia ter sido ensaiado nem ensinado: é o movimento do salto de liberdade que lhe nasceu junto. É como o pulsar do coração, que não se ensina, nem se aprende, se faz por natureza. E, como continuação do movimento iniciado, suas pernas lhe impulsionam para cima, ao mesmo tempo em que suas asas nadam, empurrando para baixo um tanto de ar, que você acaba que sendo jogado de encontro ao infinito. Outras batidas de asas e você está cada vez mais alto, cada vez mais livre, cada vez mais distante de seu passado cativeiro.

Agora à sua frente só o sol, nuvem transparentes e a imensidão que sempre lhe foi sua por direito e por herança.

Não volte para agradecer. Não se agradece por aquilo que sempre foi seu, a liberdade foi-lhe apenas devolvida.

Voa, voa, voa.


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