O Fim da Corrupção
Hoje celebramos o fim da corrupção. Lembro que cresci sem acreditar que seria possível que um dia o preço da gasolina pudesse abaixar, que jamais a moeda brasileira seria valorizada frente ao dólar, que jamais deixaríamos de ter uma dívida externa absurda, assim como não conseguia sequer sonhar que deixaríamos de ter milhões de famílias abaixo do nível da pobreza, na chamada fome extrema. Pois bem, vi todos estes fatos inimagináveis e considerados impossíveis acontecerem. Hoje, porém, o dia mais esperado de todos, o dia em que oficialmente não temos mais corrupção no governo federal. Se bem que não é a primeira vez que isso acontece, também não tínhamos corrupção durante a ditadura militar.
Disse várias vezes e repito: nunca foi sobre corrupção. Jucá e Machado deixaram claro que o objetivo era justamente o contrário: tirar do poder quem não interferia na polícia federal nem nas investigações, pois tinham que estancar a sangria, senão não sobraria ninguém. Disseram claramente que todos os políticos seriam envolvidos e provavelmente novas pessoas chamadas debochadamente de puras poderiam começar a ser eleitas. Como pode um absurdo desses?
Lembro sempre do Edílson Pereira de Carvalho. Você lembra dele? Ninguém quase lembra, pois não interessa lembrar. Edílson era o árbitro da FIFA que em 2005 confessou que manipulava resultado de jogos de maneira relativamente fácil. Bem, ele explicou como funcionava e disse que não era o único e deu exemplos de como aprendeu a manipular resultados. Alguns de seus exemplos vejo com frequencia até hoje. O que foi feito? Ele foi preso, apenas os jogos que ele apitou apenas naquele campeonato brasileiro foram anulados e a vida seguiu como se nada houvesse acontecido. Ele foi o único que sofreu as consequências do que ele denúnciou como um esquema de corrupção.
Outra pessoa que me vem a memória, num caso muito mais recente do empresário dono da JBS que gravou o então presidente da república em flagrante corrupção, assim como outros nomes grandes do governo. O que aconteceu? Ele foi o único que pagou pela corrupção. Nada aconteceu ao presidente, nada aconteceu ao senador que fora gravado, nada aconteceu com quem recebeu a mala de dinheiro e ninguém sequer se importou.
Jucá deixou claro quem era corrupto e quem era contra. Edílson Pereira também, assim como o dono da JBS. Em nenhum dos casos houve qualquer intenção de se ao menos investigar as denúncias, mesmo quando havia provas irrefutáveis. Pune-se um, normalmente o denunciante, o que deixava que a corrupção fosse apurada e segue-se o campeonato, segue-se o circo. Ninguém se indignou com o presidente que recebia visitas fora da agenda para tratar de favores, mas com o empresário que ousou denunciá-lo, com o juiz que disse que o futebol estava repleto de fraude, com a presidente que não protegia ninguém, nem mesmo os amigos.
O problema do Brasil, na opinião do brasileiro, nunca foi corrupção. A preocupação é a manutenção do status quo e cadeia para quem ousa denunciar ou colocar o mesmo a risco. O brasileiro tem a cara de pau de dizer publicamente que não se preocupa com o que seja social, enquanto mama no SUS - e aqui falo de pessoas com recursos, de empresas e de muitos que em teoria não precisavam do mesmo e o usurpam. Acham que as Universidades Federais é lugar de maconheiro, quando não consegue entrar, mas pagam as escolas mais caras do país, para que seus filhos que não precisam desfrutem do privilégio de ensino público, gratuito e de qualidade.
Quem foi para a rua vestido com a camisa de uma das instituições mais corruptas do país, envolvida em escândalos mundias de corrupção, nunca realmente se preocupou com a corrupção, e infelizmente não vislumbro o dia em que se preocuparão com valores morais e sociais. No Brasil vale a lei de Gerson: se eu estou me dando bem, dane-se meu vizinho, meu irmão, dane-se você. Corrupção só incomoda quando não estão se beneficiando.
Agradeço por ter-me lido.
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