Por Que Nossos Cérebros Não Acreditam Nos Riscos da Pandemia e a Vacina que Parou


Sim, é o que temos para hoje: falar um pouco do assunto mais falado do ano: COVID-19. Dois assuntos me chamaram particularmente a atenção hoje e quero dividir um pouco deles com você. Li um artigo no The Washington Post, escrito por Lia Kvatum, cujo título é mais ou menos a primeira parte do título dessa crônica: Why human brains are bad at assessing the risks of pandemics (sendo mais literal: Por que os cérebros humanos são ruins para avaliar os riscos de pandemias). Também roubei desse artigo a imagem aqui presente. Hoje também li a notícia de ontem, de que os testes da chamada vacina de Oxford foram suspensos, devido a um paciente que apresentou uma reação adversa.

No artigo citado, a jornalista começa com as considerações óbvias do que sabemos sobre o vírus e a doença: que ela, sim, mata, que o vírus pode ser transmitido facilmente se não houver prevenção, que o uso de máscara e o chamado distanciamento social ajudam na prevenção do contágio, que ainda não há uma vacina (pelo menos não amplamente distribuída) ou cura comprovada para a mesma, e que, memo assim, muita gente insiste em não levar o assunto a sério. Obviamente, ninguém escreveria um artigo em jornal de tamanha reputação para concluir que a razão disso é pura burrice. Então fui ler o artigo. Ele uso como suporte para achar as explicações o co-director do Centro de Gerenciamento de Riscos e Processos de Decisão Wharton da Universidade da Pennsylvania, que também é co-autor do livr de 2017 “The Ostrich Paradox: Why We Underprepare for Disasters” ("O Paradoxo do Avestruz: Por que nos subpreparamos para desastres", numa tradução livre e quase literal minha).

O livro não trata da COVID-19, obviamente, mas de como nos preparamos, ou não nos preparamos para desastres, mesmo que sejam óbvios, como muitos o são. Aqui o autor e a jornalista listam fatores intuitivos e outros mais racionais. O que mais me chamou a atenção, entre vários fatores citados, foi quando ele disse que nossas crenças nos conecta com certas comunidades. Ele diz que tendemos a acredtiar no que faz com que nos sintamos mais parte de nossos grupos e das comunidades que dividem nossos pontos de vistas e valores, mesmo que a crença específica não tenha ligação direta com o grupo. O que o grupo supostamente acredita (e aqui entra um pouco de Psicologia Social que tanto amo) nos influencia e contribui para que acreditemos até mesmo em absurdos, como teorias da conspiração que já citei algumas vezes, e até desdenhar de profissionais experientes na área. O fator e o sentimento de pertercer é muito mais forte do que qualquer lógica que se prove com fatos. Nosso cérebro simplesmente se nega ou se cega ao óbvio pela necessidade do pertencimento.

Para deixar esse lado que chamarei de inconsciente (intuitivo, como a jornalista chama) ainda mais forte, ainda há a postura profissional de cientistas. médicos e diversos experts em diversas áreas de serem moderados, de evitarem afirmações com cem por cento de certeza. Pois, o estudo e aprofundamento em qualquer assunto nos deixa, eu diria, generosos com as possibilidades e chances. Quanto mais se sabe, mais se sabe que não se sabe, e não digo nada novo aqui. Numa situação, como a atual, da COVID-19, onde tudo, ou quase tudo é tão novo, estes profissionais da área são ainda mais cautelosos, se permitem mudar de opinião, conforme evidências mostram enganos aqui e ali - e temos visto mudanças consideráveis em recomendações médicas desde fevereiro. Como diz o autor: informação sem sentimento é inefetiva, conhecimento sozinho não é suficiente para motivar ações. Dai vemos os tristes casos de pessoas que, sim, mudaram de ideia não porque se deram conta de que a explicação de alguém fazia mais sentido do que ele acreditava, mas porque alguém da família ou alguém próximo morreu. Sim, normalmente e infelizmente, deve ser trágico, pois se só ficou doente e sarou, serve apenas como prova de que o vírus e a doença não são tão nocivos como se divulga.

Ou seja, resumindo o assunto que é bem mais longo do que isso, soma-se de um lado um inconsciente de se acreditar no que nos faz pertencer ainda mais ao nosso grupo, ao outro lado que não tem uma firmeza ou uma exatidão ilusória que o humano gostaria de ouvir, e o pobre cérebro humano, pouco usado e mal alimentado, se delicia acreditando no que mais lhe compraz à revelia da sanidade física e mental dele mesmo ou de quem está ao seu redor.

Espero que você leia inglês para poder ler o artigo original, que achei bastante interessante e só toquei numa pequena parte dele aqui. 

Outro assunto que gostaria de falar é sobre a vacina da AstraZeneca (a chamada vacina de Oxford) que teve seus testes suspensos. Não me aprofundarei no assunto, pois nem tem muito o que se dizer. Apenas que vejo aqui uma boa e uma má notícia: a má notícia é que pode servir de mais argumento para os contra-vacina. Nem vou entrar em argumentos óbvios aqui, mas vejo esse risco como bem grande. A boa notícia é que, apesar da pressa e da pressão para se ter essas vacinas lançadas logo, essa reação adversa ocorreu agora, quando ainda apenas poucas pessoas tomaram essa vacina, o que certamente dará tempo ao laboratório para corrigir e fazer o que deve ser feito para garantir a segurança da mesma. Não entrarei em questões indignas de comparar a vacina da grife com outras já aprovadas e/ou na fase final de testes.

Bem, era isso por hoje. Agradeço por ter-me lido.

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