Para Não Falar de Política

Embora isso não seja uma promessa, gostaria de evitar de falar de política. Claro que quase tudo que falamos, principalmente quando nos posicionamos ou opinamos, acaba sendo política, de certa forma. Mas falo, sei que você entendeu, de política partidária. Ou melhor, falo do atual Fla-Flu, do nós contra eles, da luta do bem contra o mal, que o discurso político corrente virou. Bem, só de eu falar isso, já estou falando de política.

Porém, atualmente, a situação está difícil, pois, mesmo quando não falamos do assunto, neste mundo binário criado, nos lêem e ouvem, como se estivêssemos tomando partido. Se eu falar da pandemia e der a entender que sou a favor de isolamento, que acredito na ciência, ou o que quer que eu fale, vai ter gente apontando o dedo e dizendo que sou de um lado, normalmente do outro lado, de acordo com quem julga. No final de semana, li uma crônica humorada e bem escrita de Antonio Prata na qual ele pergunta se o bacon é de direita ou de esquerda. Brincadeiras à parte, a sensação é essa mesmo. Não se pode dizer nada que se é tachado. 

Lembro que nem mesmo durante a ditadura isso acontecia. Nos programas humorísticos, Jô Soares com seu Sebastião, codinome Pierre, o último exilado em Paris, Chico Anysio, com a Salomé conversando com o então ditador João Batista Figueiredo, mesmo os Trapalhões e tantos outros criticavam o governo, dentro do que a censura permitia, o que era muito pouco, convenhamos, não eram chamados de comunistas nem mandados para Cuba ou Venezuela, como se o Brasil estivesse muito melhor que tais países. Entendia-se a crítica ao governo, à economia, à sociedade, como sempre se entendeu, como parte da vida. O jornalista, cronista, escritor, qualquer profissional que abertamente dava sua opinião também podia dizer o que pensava sem ser rotulado como direita ou esquerda necessariamente.

A situação atual aqui nos EUA não difere muito da do Brasil, também foi-se criada nos últimos anos uma animosidade absurda e extremistas que fazem com que mais extremistas se pronunciem, ou, mesmo os que não o são, sejam tachados como se fossem, pois passa a ser uma certa forma de extremismo não ser extremista, se isso faz algum sentido. Da mesma forma que no Brasil, como disse, isso é atual, diria que por volta de quatro ou cinco anos para cá, por coincidência ou não. No passado, assim como no Brasil, quando um presidente era criticado por jornalistas ou em programas humorísticos, por exemplo, entendiam a crítica e aceitavam, pois sabiam o óbvio, sempre serão criticados e inteligentes aqueles que conseguem ouvir a crítica sem melindres, o que não acontece com os atuais presidentes desses países. Posso citar aqui o presidente George Bush, por exemplo, de quem estou longe de ser fã. Ele sempre foi muito criticado no programa Saturday Night Live e, mesmo assim, apareceu no próprio programa antes de sair da presidência, de forma voluntária, brincou, agradeceu e, assim, deixou claro que a crítica é parte da democracia. Hoje isso não acontece mais, nem no Brasil nem aqui. Criticar qualquer atitude do governo ou de seus aliados, mesmo que estes sejam milicianos, como no Brasil, ou que sejam investigados por escândalos de prostituição e abuso sexual de menores, como aqui nos EUA, faz com que você seja rotulado de comunista - o que já deixo claro que não me é ofensa. Há muitos termos que pessoas usam hoje em dia para se definirem que me ofenderiam infinitamente mais.

Imagino como viveria Nelson Rodrigues nos dias de hoje. Alguém que criticava Marx, comunistas e também o governo ditatorial. Isso é impensável pelos binários, se é que o que fazem é considerado pensar. Ele seria linchado em praça pública. Sofreria boicote, seria chamado de algumacoisa-opata, outracoisa-ista, e outros neologismos ridículos, como os de hoje, que serão esquecidos antes da lambada. 

A imbecilidade atual - desculpem, não me contenho - chega ao cúmulo de se acusar a Globo de ser de esquerda. Prestem atenção, estou falando da Rede Globo, uma das empresas que mais apoiou e se beneficiou com a ditadura militar, que sempre esteve inescrupulosamente do lado do poder (de todos) e que chora para sentar no colo de um ditador. Uso esse exemplo por me parecer o mais absurdo, mas há esquicitices e idiossincrasias inúmeras e cansativas. Sim, é cansativo demais ter que repetir e explicar o óbvio. E olha que ainda nem cheguei nos terraplanistas, nos anti-vacina e outros tantos imbecis que viraram moda. Como já disse anteriormente, parece que ser imbecil hoje em dia é chique. Os imbecis saíram do armário. Não há mais constrangimento em não se informar, mal ler as manchetes, não saber do que se fala, não se interessar em se informar e, mesmo assim, opinar e discutir com especialistas dos mais diversos assuntos. Foi-se o tempo em que o médico fazia o diagnóstico e prescrevia o remédio. Agora ele pode virar comunista na hora do diagnóstico e/ou na hora de receitar o remédio. Todos sabem mais do que ele que, só porque se formou em medicina, acha que entende de diagnóstico e de medicamentos.

Ainda hoje li um jornalista americano que, ao ser elogiado, repito: elogiado, fez questão de dizer que a função dele não é agradar ninguém. Disse que seu trabalho pode agradar a alguém hoje e amanhã desagradar essa mesma pessoa, pois ele não tem compromisso com lados e partidos. Claro que para um binarista isto é só demagogia, mas é como acho que deve ser. Qualquer coisa fora disso não é jornalismo, mas partidarismo, ou propaganda no sentido mais inglês da palavra. Além do mais, história alguma tem só dois lados, nenhum partido ou político é santo. Como diria uma sábia falecida: se fossem honestos iam trabalhar, não iam se pendurar na política. Sei que deve haver exceções, mas ainda não conheci nenhuma nos meus poucos cinquenta anos de vida. O mundo é muito mais complexo do que os precipitados binários acham. 

Bem, creio que essa foi a única forma que encontrei para não falar de política: falando da mesma e explicando o motivo para não falar mais: cansaço, sensação de perder tempo. Então, a partir do próximo texto não falarei do assunto, pelo menos não por mais do que for necessário, de acordo com o assunto tratado. E, sim, noventa por cento das vezes deverei estar criticando o governo, seja ele qual for. Podem me cobrar se me virem passando o pano para governo. Da mesma forma como cansei de criticar FHC, Lula, Dilma, Collor, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama e seguirei com os demais. Os dois atuais me deixam constragidos e por respeito aos já citados, inclusive vários que não gosto nem de saber notícias, decidi nem inclui-los na lista, pois eles nem isso merecem, assim como não merecem seus nomes sequer escritos por mim.

Agradeço muito por ter-me lido

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